Imagem: Nina Luong
O artigo de opinião de Nuno Mamede Santos, Fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo, publicado no jornal Expresso, no dia 26 de março de 2026, recentra o debate num ponto essencial: o país não pode continuar a olhar para grandes volumes de biomassa lenhosa apenas como um passivo a eliminar, quando essa mesma biomassa pode e deve ser integrada numa estratégia inteligente de gestão do território, prevenção de incêndios, valorização económica e transição energética.
Essa reflexão converge, em larga medida, com a visão que o CBE tem vindo a defender. O problema das espécies invasoras, tal como o do abandono rural e da descontinuidade da gestão florestal, não se resolve apenas com ações avulsas de corte e destruição sem destino útil. Resolve-se com ordenamento, com gestão ativa e continuada, com criação de valor para os materiais removidos e com o desenvolvimento de cadeias logísticas e industriais capazes de transformar sobrantes, resíduos e biomassa de baixo valor em energia, calor, biocombustíveis, biochar, biomateriais e outros produtos da bioeconomia.
Mais do que uma “guerra” contra determinadas espécies, importa construir uma paisagem mais resiliente, diversa e gerida, onde a remoção de biomassa contribua para reduzir carga combustível, proteger povoamentos de maior valor ecológico, apoiar a instalação gradual de espécies autóctones e gerar rendimento local. Sem valorização económica da biomassa residual, muitas operações de limpeza, desmatação e gestão de combustíveis continuarão a ser financeiramente difíceis de sustentar, sobretudo nos territórios de baixa densidade.
É precisamente aqui que a valorização energética e material da biomassa ganha importância estratégica. Não como incentivo à proliferação desordenada ou à monocultura, mas como instrumento de gestão territorial, de dinamização do mundo rural e de apoio à floresta multifuncional. Uma política pública moderna deve reconhecer que a gestão florestal sustentável precisa de fileiras de escoamento para os materiais lenhosos removidos, sob pena de perpetuar um ciclo de despesa pública sem resultado duradouro.
A visão do CBE assenta nisso mesmo: transformar um problema recorrente numa oportunidade de gestão, emprego, coesão territorial e produção de energia renovável, articulando floresta, indústria, ciência e política pública ao serviço de uma paisagem mais segura, produtiva e resiliente.
Artigo: “A guerra que estamos a perder, e como a podemos ganhar de outra forma”, de Nuno Mamede Santos.